NAS VEIAS: DEPENDÊNCIA ESFEROGRÁFICA

26.08.2008

DE FILHA PARA PAI

Eu sempre imaginei saber tudo sobre meu pai.
Nunca, no entanto, havia participado de qualquer ato seu que o meu ser não tivesse conhecimento.
Tão cedo, quase não acreditei quando recebi de suas mãos o meu primeiro caderno "de escrever".
Depois disso, eu ganhava incontáveis caixinhas de lápis de cor, canetas, lápis de escrever e tantas outras coisas que me alegravam por inteiro.
Subitamente, como munca, descobri que não sabia tudo sobre meu pai.
À partir disso, sondar seu inimagináveis pensamentos fazia de mim, curiosa, a mais nova supreendida que compunha o universo. Desde então, soube que esta foi a primeira grande descoberta da minha vida. Aos poucos anos de idade, à flor da infância.
Talvez não soubesse mesmo de cada titubeio de seu pensamento, mas de uma coisa eu tinha certeza: era a maior guardiã de seus atos em todo o universo. Não só de atos, mas de palavras, indignações. Ouso, até, dizer que de seu paladar eu também era perita. Tudo isso poderia ser mentira se hoje, aos dezoito anos de idade, ao sentir o gosto de côco, eu não sentisse o cheiro de sua presença em mim.
Mas repensando muito bem, em tanto tempo, até que o descobri consideravelmente bem: talvez meu grande professor tenha sido lágrimas, aspectos ínfimos ou de grande significado. Ao observar sua vivência tenho eu, descoberto características lindas e particulares que aprendi a admirar.
E hoje, nada físico nos separa. Ainda não a morte, ainda não a ignorância. Mas hoje, tão perto fisicamente, nem paladar, cadernos, tampouco palavras poderão nos aproximar mais que a distância de uma vida inteira até outra. Mas disso, ele ainda não sabe. Talvez não por mim, mas estes mesmo aspectos que fisicamente nos atraem lhe mostre o quanto é vital a aproximação.
Talvez um dia saiba, talvez nunca descubra; talvez quando aprender a dizer com os lábios rudes ou de quem aprendeu que chorar desmerece o homem: filha, eu te amo.


Escrito por Heloisa Rech às 11:25
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